8/29/09

Cidadã do mundo, cidadã de lugar nenhum?

Numa fase em que tanto o meu país de origem e o meu país de residência t erão eleições nos próximos tempos, não posso evitar sentir-me enteada de ambos. Sei que tudo rege-se por leis (e excepções), e na verdade, a Nyabetse de 1999 não se teria importado muito. - É que nessa altura eu achava que abstendo-me de votar unia-me às massas que demonstravam o seu protesto perante o sistema, era uma manifestação de desespero, e não de desinteresse como muitos explicavam.

Dez anos depois aqui estou. Trabalhando activamente onde resido, pago os meus impostos, presto serviços comunitários, etc. Contribuindo como posso para o meu país, seja através de trabalho, formação, divulgação, etc (pode dar tema para outro poste cá no blog)

Mas no momento das grandes decisões não posso dizer o meu parecer!

Deste lado porque não tenho a nacionalidade, e portanto não cumpro com os requisitos. É a lei. Aqui sei oque fazer, se quizer

Do outro lado, porque não emigramos em em número suficientemente grande como para podermos ter a palavra. É a excepção da regra!

Rir para não chorar.

8/16/09

Afrikan History Week Festival


Na senda das coisas positivas que este ano me traz, está a minha primeira participacão num festival de artes e cultura.

A estória é longa, mas resume-se na tentativa de escapar de mim mesma, e tentar ser outrém. Tentar sentar detrás duma secretária e "sentar cabeça", mas realizar passados anos que isso não me trazia felicidade, nem me levava a lugar nenhum.

Passou por conflictos internos que me ajudaram a assumir que sou quem sou, mulher multifacetada, músico e historiadora, apaixonada pelos temas sociais, activista e believer, mas não religiosa, apesar do meu berço.

E por entender que todas estas facetas devem conviver umas com as outras. Enfim, para abraçar quem sou aceitei as mudanças, deixei meu emprego, e quando melhor preparada estava o meu dream job veio ao encontro de mim, literalmente.
Voltei a passar horas e horas junto do meu piano, a contar-lhe segredos do meu ser, e ele a transformar tudo isso em sons meus.

Comecei a beber com mais ansia, do néctar da vida, do ritmo, do dia e da noite.

Estive em Maputo durante 3 semanas, e como que magicamente, 50 páginas nasceram das minhas leitura da bela Maputo. E não parei, escrevo, escrevo, poetizo, vivo nas minhas veias quem eu sou.

Tudo isto para dizer que no dia 04 de Setembro vou tocar piano no festival.

Vai ser um conceito que reflecte mesmo quem eu sou. Uma amiga vai dançar, juntas declamaremos e finalmente eu explorarei ritmos da minha terra, e combina-los-ei com a minha veia clássica.

É apenas o principio.

www.afrikanhistoryweek.com

8/9/09

Uma manhã na polícia - 2

Chegada à policia, espero uns minutos na bicha para ser atendida.

Estavam dois inspectores, uma jovem, e não tão jovem, homem. Por sorte atendeu-me a mulher.
Muitas vezes nas repartições públicas pensamos que um homem atendendo uma mulher é mais facilitado, porque estabelece-se logo um laço, ora por via de olhares e as associações que cada estabelece (a mulher-objecto, o sorriso, a sedução), ou pelo apelo ao aspecto maternal que sempre transportamos (sim, sim, estamos conscientes desse poder ;)...) Mas naquela situação, o homem representava para mim "a Policia", instituição. A tal que me incomoda...

Enquanto ia pensando em tudo isto, abrem-me a porta, e indicam-me que apresente o meu assunto à jovem.

- Bom dia. Gostaria de saber se voces tem alguma unidade que trata de acosso virtual.
- Temos sim. Qual é o seu problema?
- Quando alguem te manda mails incessantemente, e recusa-se a deixar-te em paz durante meses e meses, isso pode ser motivo de queixa?
- Conta-me a tua estória.

Lá contei a estória, e mostrei-lhe o monte de "provas", os emails que haviam sido enviados, incluindo, claro, os dos insultos, que me haviam incomodado muito. Deixem-me dizer-lhes quando bloqueei a Maria do meu facebook, fiquei fora do debate, não guardando, por isso registos do mesmo. As mensagens pessoais que ela me havia mandado pelo facebook eu apaguei, sem saber que um dia seriam necessárias (rs).

De todas as formas, a inspectora ficou chocada quando lhe entreguei o "dossier" que trazia. Infelizmente estava tudo em espanhol, de formas que ela não se pôde inteirar do seu conteúdo.

Enseguida ela deu-me um modelo usado para reportar casos. Tratando-se de um tipo de acosso, o virtual, e tendo este caracteristicas próprias, ela acrescentou as perguntas específicas do mesmo, e explicou-me que devia escrever uma carta, contando o caso "tintin por tintin", demonstrar que houve acosso, e deixar explicítas as medidas que eu esperava que a poli tomasse.

Era um dia muito estranho. Um dia vermelho, como os chamo. Não me sentia nada bem, e tinha uma série de reuniões umas detrás das outras. Havia uma tensão no ar...

Decidi ir a um netcafe e escrever a carta.
Bem, como palavras não me faltam, escrevi uma carta de 3 páginas.
Oque desejava? Que Maria deixasse de me comunicar, de uma vez por todas. Quer fosse por via escrita, falada ou física. Queria a minha tranquilidade e a da minha familia.

Lembram-se de quando eu disse que o policia homem representava o sistema? Pois, eu sei que alguns franziram o cenho. Eu também o faria, se não entendesse de que se tratava.

Pois então, duas horas mais tarde regresso à estação da poli. O jovem recebe a carta, incrédulo olha bem para os meus olhos e diz "Já escreveste?" (Hei, passei DUAS horas a escrever, estou frustrada por ter tomado tanto tempo, mas sim, escrevi.) Acenei que sim.

- Mas escreveste-a tu mesmo? Em norueguês?
Eu já estava a perder a paciência:
- Sim, tem alguma coisa de errado nisso? Queres ler para ver se tem error ortográficos?

Felizmente a inspectora estava pronta para atender-me de novo. Suspirei de alívio. Estava ali uma mulher que entendia o meu caso, uma verdadeira sister (rs). Ela recebeu a carta que eu havia escrito, leu-a, e confirmou que havia ali um caso. (Não pude esconder um sorriso de vitória, hehehe!)

Enseguida ela explicou-me que eu receberia, por correio uma confirmação da entrada do caso à policia. Mas isso não sginifica nada, Eu agora levo este processo para o depertamento, e serão eles quem vai fazer as investigações necessárias, e tomarão as medidas certas. Mas com todos estes emails, não deverá ser dificil para eles chegar a uma conclusão.

Pronto, apesar das minhas dores e do cansanço saí com um sorriso e uma esperança.
Passados 5 dias recebi por correio a carta da policia confirmado a entrada de um caso, da cidadã acima citada (moi), contra a cidadã Maria.

Agora é só aguardar o desfecho do caso!
.... .... .... ....


PS: No canto esquerdo deste blog tem o link que diz "things that make me sick about this video". É o dito cujo.

8/2/09

Uma manhã na polícia - 1

Comparativamente, acho a policia norueguesa bem pacifica. Mas no geral, não o é, eu sempre sou "innvandrere" (imigrante), logo relativamente mais ignorante que os "locais", e por cima negra!

De todas as formas, o meu contacto com a poli é sempre mínimo. Quero dizer, practicamente nulo. Só falo com a poli quando eles me interpelam, e sempre coloco as garras bem à vista. Ou melhor, afio bem a lingua, desafio-os, e continuo com os meus fazeres. Como quando fui receber a minha irmã na estação central, e estava um polícia a interrogá-la. Pedi-lhe que na minha presença também parasse cidadãos de raça branca e fizesse a sua rotina (como ele chamou oque estava a fazer).

Mas não pensei em nada disso quando esta semana decidi ir a poli meter queixa por acosso. A estória começa há já alguns meses.
Resumidamente remeto-vos a este video, que coloquei nessa altura neste outro blog. O video, para quem não o pode ver, retrata a actriz mexicana Salma Hayek dando de mamar um bebé africano no centro de saúde perdido no nosso continente negro. Ele foi colocado por uma então amiga no facebook. Expressei a minha opinião sobre o mesmo, a qual levantou um grande debate, ond eentre outras coisas fui chamada "racista".

No entanto, eu achando que o debate se havia tornado pessoal e bastante rude, retirei-me do mesmo. A pessoa que colocou o video, a quem chamarei Maria, começou então a mandar-me mensagens ond econtinuava o debate e os insultos, à minha caixa de mensagens do facebook. decidi retira-la da minha lista de amigos. Mas mesmo assim continuava.

Pedi ao facebook que a boqueasse, tendo como razões o seu acosso.

Quando ela descobre que não me atinge por esta via, começa a mandar-me mensagens ao email.

Pedi-lhe que me deixasse em paz, oque ela fez durante uns meses.

Mas na semana passada, voltou ao ataque, desta feita contra uma das amigas que concordava com o meu pontos de vista sobre o video. E nessa deixa, recomeça a mandar-me emails!

Com uma paciência que não é minha, mandei-lhe uma mensagem em que lhe peço que me deixe de mandar emails, e que se recebesse mais um só, contactaria a policia.

Respondeu-me! E troçando de mim por querer contactar a polícia. Só que felizmente cá toma-se o assedio ou acosso muito seriamente.

No dia seguinte imprimi todos os emails que tinha conservado, acima de 20, e dirigi-me a policia.

7/3/09

Direito de votar

Não quero nem falar da discrepância entre o discurso de que nós na diáspora devemos levar projectos e investidores ao país e o facto de não podermos exercer o direito ao voto.

Só queria chamar atenção a esta noticia, no canal de Moz , sobre como nós no resto do mundo (excepto Portugal e Alemanha), não vamos poder votar.

Quando nos remete à exiguidade de fundos para fazerem o seu trabalho de nos providenciarem a possibilidade de eleger, sendo nós parte de um bloco, o tal "resto do mundo", que virtualmente é parte de Moçambique (constituído por moçambicanos na diáspora), pergunto-me a mim mesma se no caso de eles terem meios exiguos, poderão se dar ao luxo de excluir parte do Moçambique geográfico da possibilidade de votar?

Oque quero perguntar é: Pode-se excluir por exemplo Namaacha, Maxixe, Xizapela etc, etc, das eleições porque não há meios?

Será mais fácil tomar medidas exclusivas para osque estão distantes fisicamente, porque se assume que não reagiremos?

E há mais. Refere-se à falta de documentação, como a segunda causa de nós não podermos votar. Não entendo então proque é que nos registamos na nossa embaixada.

"...os moçambicanos na diáspora terão de provar com comprovativos de que são moçambicanos. Para o recenseamento eleitoral, têm de ter documentos como passaporte ou bilhete de identidade com validade e de origem moçambicana de forma a facilitar o processo das equipas do STAE, conforme prevê o artigo 22 da Lei 9/07. " (cit)

Não seja por isso, tenho documentos válidos, e de origem moçambicana. Digam-me onde é que é o meu posto de recenseamento, e para lá me dirigirei.

Ou então, apresentem-nos razões plausíveis de não podermos exercer o nosso direito de voto.